Blog dedicado a Alejandro Jodorowsky com traduções de seus textos.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Poema



Viaja de ti até ti mesmo, tratando de ser o que será.

A única maneira de avançar é extrair a voz da palavra, extrair o ato da intenção,

extrair o amor do apego e o desejo de seu objeto imaginário.

Penetrar o diâmetro do túnel da mente, perdendo mil e uma peles, não ser este nem o outro, uni-los em um só circulo, buscar a visão oculta atrás da visão.

De olho em olho ascender até a última consciência

O artificial é levado pelo vento, como um enxame de pétalas.

Então circulará em suas veias o licor das entranhas cósmicas.

Arruinando os cegos, integrando os bosques nus à árvore encouraçada.

Sua pátria será somente as pegadas de seus pés descalços e sua idade, a idade do mundo.

Enquanto tiver em sua frente uma definição, nunca mais em seu peito a víbora da inveja.

Nunca mais entre as suas pernas o desejo de um corpo sem alma.

Elegerá por caminho o impalpável nevoeiro.

Vencerá o espelho que compara.

Demolirá a pirâmide de ancestrais que leva incrustada em suas costas.

A ascensão e a queda se amalgamam.

Os olhos que vêem por fim se vêem.

Prazer incessante, orgasmo eterno, silencio que é a soma de todas as músicas.

Deus como um espinho de arvore gira sobre a palma de sua mão.

Te integras à espiral de astros.

No umbigo do mundo sua alma se banha.

Cada um de seus fios de cabelo se amarram no céu.

Uma nuvem plena de chuva colorida alimenta o choro de seu êxtase.

Floresce em sua boca uma árvore branca e negra.

Seus dedos traçam hieróglifos de fogo.

Este é o momento em que os limites se abrem

Como as pétalas de uma flor que cresce nos pântanos.

O que foi uma senda negra se espatifa em raios de luz.

Terminam as fronteiras, as definições ficam esfumaçadas.

Ninguém pode se comparar ou julgar.

Calma eterna.

Os Egos ilusórios deixam de ser ilhas e se entregam ao êxtase do coração único para se dissolverem em grandes batimentos de amor.

A fragrância de cada ser zomba das idéias cristalizadas.

O calor essencial dos sentimentos afetuosos.

Estrela brilhante dos atos bondosos.

O inesquecível tremor da paixão, isso é eterno.

Não vem, nem vai, é uma carícia daquilo que sempre é.

Quero que essas palavras beijem seus olhos.

Que a planta de seus pés acaricie o solo onde estão.

Que seu corpo desenhe no ar labirintos sagrados.

Nada é inútil, tudo serve para alguma coisa.

Uma busca que só pode terminar quando nos convertermos no que buscamos.

O filosofo se converte na verdade.

O artista se converte na beleza.

O nadador se converte na água

O poeta abre uma porta em seu poema.

Possa uma água sem fim inundar a sua memória

Que os ossos do crânio se cubram de palavras sagradas.

Que no lugar de dinheiro se troquem mariposas brancas.

Cada instante é a proa do tempo total

Esse instante é o momento eleito

Hoje a eternidade.

Seu corpo é infinito.

Seu eu é a divindade.

Abdica da memória.

Que o mundo dos gananciosos se torne invisível

Sente ternura por cada mente que se despreza

Seja como uma arvore que toma a forma do canto dos pássaros que a habitam.

Mãe e pai nosso que estão na terra e no céu.

Purifica e santifica nossos nomes

Façamos parte de seu reino

Faça sua vontade no nosso corpo como no nosso espírito

A consciência prometida para o futuro nos dê hoje

Recompense nossos esforços, assim como nós recompensamos os nossos colaboradores.

Nos dê entusiasmo para que continuemos a fazer o bem

Porque é paz, a bondade e o amor nesta hora eterna, amém.



4 comentários:

  1. Profundamente revolucionário mistico e mágico! Sempre gigante Jodorowsky!
    Beijo enorme!
    Marcelo

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  2. Deliciosa surpresa me deparar com este blog, um espaço para aqueles que, como eu, tem como Jodorowsky um dos grande em nossas vidas.
    Parabéns ;)

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  3. alquimista das palavras, obrigada por lembrar a minha alma sobre ela mesma. um grande presente. gratidão, amor!

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